Textos poéticos do poeta Fernando Assis

PIANO

Cai a chuva

E somente eu

A vejo caindo.

Cada gota de água que bate no chão

É uma pergunta

Que não respondo.

Cai a chuva

Num piano de cauda

Cada gota que bate nas teclas

Pergunta uma nota.

Meu piano de cauda

De madeira firme

Vou desabá-lo a machadadas,

Faz anos e carreguei nas costas

Esse piano.

Subi escadas

Fiquei do lado de fora de tantas festas

Andei durante tanto tempo

Em tantos caminhos de sol e chuva

Procurando um lugar para o piano

Para esse piano de cauda

Que pesa tantos quilos de indignação.

Deixá-lo na chuva

Até que as gotas da chuva o entorte

Assim como ficou meus dedos

Completamente tortos

Quando resolvi tocá-lo.

Cai a chuva

E meu piano encurta a cauda

Fico na janela

A olhar as gotas que se arrebentam

Sem receber resposta.

 

INSTANTE

Fumo e Aninha me olha embaraçada

posso eu fumar

dar belas e fortes tragadas

e estragar o cheiro de alecrim que é tão habitual na sala...

Aninha me fita

eu fito a fita no cabelo dela

que cabelo estranho

é seda

é palha...

Fumo e a fumaça no ar dissipa,

quando acabo o cigarro

Aninha se ergue de onde está

e me faz uma proposta indecorosa.

Aninha

se eu pudesse eu fugia

me dissipava feito a fumaça

largava você na sala

com o seu cheiro habitual e enjoativo de alecrim.

 

DESEJO AINDA SER...

Desejo ser ainda

Como o puro olhar de uma criança

Como a gaivota que no céu

Busca o alimento no mar

Como a águia que arrisca seu voo

Em um risco vital

Como a fonte de pura água

Que nunca seca

Como os velhos que sorriem

Das inexperiências dos mais jovens

Como a nuvem que caminha

E se dissolve sem se preocupar

Desejo ainda ser

Como a leve brisa de uma noite quente

Como a agilidade de um gato

Que sobe muros e caminha sem ser visto no escuro

Como as estrelas que se exibem

E depois se explodem

Como a Vésper que cai

Alucinadamente

Como um cometa que passa

E deixa seu rastro

Como um apaixonado que vive a suspirar

A todo instante

Como o cheiro da dama-da-noite

Que apenas exala à noite

Ainda desejo ser

Como os despreocupados

Como os que sonham

E são abstratos

Como os poetas que amam

E acreditam na humanidade

Como uma serpente

A devorar uma maçã

Como um músico a cantar

Uma nova canção

Como um filósofo a discutir

O ostracismo

Como um profeta a perturbar

Os incrédulos

Como uma sombra

Que salta e permanece

Como a chama a queimar e aquecer

Tolos corações

Como a água que escorre

E molha um belo corpo feminino

Ainda desejo ser

Como o vento que nunca erra a direção

Como as sedes que foram

Saciadas

Como as fomes que foram

Exterminadas

Como as águas que nunca erram

O percurso

Ainda desejo ser

O Ser que se criou separado do humano

Ainda desejo ser

O Ser no momento da criação.

 

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Tito Mellão Laraya

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