Escritores ou 'escrevinhadores'

Por Josias A. de Andrade

Neste texto trago à luz algumas reflexões referentes à possibilidade que hoje todos têm de publicar um livro, não importa sobre o que, e colocá-lo à venda. Percebe-se que o interesse pela escrita advém da facilidade proporcionada pela tecnologia, hoje acessível a todos. Observa-se também que os indivíduos da Geração Z, por terem nascido nesta era dominada pela informática, têm mais facilidade para usar os recursos advindos desta revolução tecnológica.

Conclui-se, como é fácil observar na grande rede, que as pessoas estão escrevendo muito, o que é ótimo; e que em contrapartida estão escrevendo mal, o que é preocupante. Para muitos, ter o status de escritor é uma forma de satisfazer o ego. E chega-se à questão mais séria: ao publicar por conta própria, pulam-se etapas importantes, e como resultado colocam-se no mercado trabalhos que só são lembrados por serem ruins, o que é lamentável. Daí a pergunta que não quer calar: está o leitor diante de escritores ou de “escrevinhadores”?

Num fenômeno sem precedentes, de um momento para outro todo mundo nessa terra decidiu ser escritor. O interesse repentino pela escrita — levando em conta que os brasileiros são pouco afeitos à escrita e à leitura e mais ao futebol e ao samba — no mínimo é paradoxal. Ainda mais numa época em que as redações são o bicho-papão dos vestibulares e concursos públicos. Como explicar que a redação reprova tanta gente e o interesse de tantas pessoas por escrever? Fato é que com o advento dos celulares e seus aplicativos surgiu a possibilidade de interação mais eficaz entre os indivíduos. Antes dos celulares a comunicação se dava por meio de orelhões, que funcionavam com fichas, e todo mundo era feliz.

À guisa de esclarecimento à geração atual, a expressão “cair a ficha” tem origem no uso dos orelhões que funcionavam com a introdução de uma ficha semelhante a uma moeda com duas ranhuras de um lado e uma do outro. Depois de colocada no orifício do aparelho, após alguns sinais sonoros esta ficha caía e assim obtinha-se a linha e a conversa se iniciava. A engenhoca, presente em todas as esquinas da cidade, era tosca mas funcionava. Bons tempos aqueles em que se pagava efetivamente pelo serviço utilizado. Depois disso vieram os cartões magnéticos com os créditos contados em minutos, que eram deduzidos de um total x de unidades. Mas com o advento dos celulares, comunicar-se de forma escrita tornou-se uma necessidade, até mesmo em razão da economia que isso proporciona em tempos de crise. Tornou-se corriqueiro, em todo lugar, observar pessoas com a cara enfiada no celular “teclando” para alguém. E fazem isso dirigindo, pedalando, caminhando, comendo, tomando banho, amando...

Agrada ao observador ver como manuseiam com destreza esses aparelhinhos cheios de segredo. E escrever, ainda que seja sobre amenidades do dia a dia, tornou-se tão importante, que jamais na história do homem foi produzida tamanha quantidade de mensagens. O que antes era comunicado por meio de fumaça ou figuras em paredes de cavernas, hoje contorna o planeta em segundos e pode chegar ao conhecimento de todos os terráqueos. O mundo tornou-se de fato uma imensa aldeia, cumprindo o que anteviu o filósofo canadense Marshall McLuhan na década de 1960. Essa facilidade de o homem se comunicar de forma tão rápida e eficaz é que concorre para esse interesse pela escrita. Apenas para refletir: imagine se toda mensagem transmitida pelo WhatsApp fosse escrita a caneta usando papel. Somado à possibilidade de escrever, pode-se ainda usar livremente o espaço democrático da internet.

Hoje, até mesmo crianças em idade precoce sabem manusear um celular e tiram proveito de grande parte de suas funções deixando marmanjos de queixo caído e pasmados. Para entender o fenômeno ou mesmo estabelecer alguma relação causal, é preciso saber quem são os atores nestas cenas. A Geração Z, na definição sociológica, é a que compreende os nascidos entre 1995 e 2010. E a teoria mais aceita por estudiosos é que essa geração surgiu para suceder a Geração Y, que terminou no fim de 1982. Como estas gerações já nasceram “antenadas” no mundo dos bits e bytes, os indivíduos que delas fazem parte têm mais facilidade para aprender os conceitos teóricos e práticos das tecnologias atuais, ainda que a evolução seja constante. Geralmente estes novos autores utilizam-se de computadores e notebooks para escrever, diferente de como faziam as gerações anteriores que usavam canetas-tinteiro e as velhas e obsoletas máquinas de escrever. Eu mesmo tive uma, e era por meio dela que produzia meus trabalhos escolares.

Josias AndradeMas escrever por escrever, como muita gente faz, não faz muito sentido. Recentemente numa rede social alguém estava preocupado com o número de páginas que havia escrito. E questionava se era muito ou pouco. Havia uma completa falta de discernimento e bom senso, uma vez que uma obra ou um bom texto não se deve mensurar ou qualificar pelo número de páginas e sim pela importância de seu conteúdo. Constantemente veem-se discussões vazias e conversas intermináveis que não levam a lugar algum a respeito de trama, personagens, desfecho etc.

O ponto crítico disso tudo é a qualidade sofrível dos textos, muitos já publicados. Infelizmente muitos autores principiantes, enquanto se preocupam com a quantidade de palavras que escrevem — como se isso tivesse alguma importância —, esquecem do esmero que devem ter para com a língua, pouco se importando com quem vai ler a “obra-prima” que escreveram. E aí erram nas concordâncias, conjugações, pontuações e marcações de diálogo. Outras vezes deixam solta alguma ponta da história, equivocam-se aqui, misturam as bolas acolá, confundem “capitão de fragata” com “cafetão de gravata” — coisas bem distintas e inconfundíveis. Como normalmente, ao colocar a obra na Amazon são disponibilizadas as páginas iniciais para “degustação”, usando deste artifício é possível ver o que andam escrevendo. Algumas vezes é possível surpreender-se com obras magníficas — poucas —, e obras que deixam muito a desejar em todos os quesitos — muitas. Mas ao deparar com coisas que deixam até careca de cabelo em pé, não dá para resistir a tentação de mandar uma mensagem para o autor falando dos problemas vistos logo no começo do livro. Mas infelizmente, na maioria das vezes, esses novos autores nem sequer respondem, fingindo-se de mortos ou que não é com eles. E comportam-se como celebridades que dificultam ou impedem que a patuleia chegue a seus pés.

Interessa a muitos o título de escritor, mas esquecem que para isso devem ter uma base, preferencialmente partir de um projeto, investir tempo e dinheiro, ter foco naquilo que pretende levar ao leitor, e sobretudo estar aberto a ouvir críticas. Com esse boom de escritores surgindo hoje, muitos profissionais de literatura e conhecedores do assunto têm disponibilizado cursos para escrita criativa. Mas como grande parte dos que escrevem pensa que escrever um livro é como compor uma redação escolar, engana-se e obtém resultados pífios. E nem revisam antes de publicar ou pagam para um revisor fazer esta tarefa! Infelizmente, com a independência vem a má qualidade, porque a publicação de um livro é um trabalho de equipe, em que cada um tem papel bem definido com responsabilidades específicas. Sem esta sinergia não se pode esperar resultados excelentes.

E também para tirar proveito desse nicho de mercado, formado pelos escritores de primeiro livro, surgiram as editoras que publicam sob demanda. Com isso qualquer um pode satisfazer o desejo de escrever um livro, um dos deveres do homem na visão de Monteiro Lobato. E as três ações citadas pelo autor de Narizinho não são, pelo menos nos dias de hoje, nenhum bicho de sete cabeças: quem não consegue plantar uma árvore e pôr um filho no mundo? Das três coisas, a mais complexa é, não resta dúvida, escrever um livro. Fato é que estas tarefas devem ser planejadas, e a terceira é a que requer mais atenção. Muitos dos escritores que grassam na rede — “muitos”, não todos —, na verdade são meros “escrevinhadores”, porque além de escreverem mal, não aceitam crítica e tampouco querem investir. É por isso que muitos textos, em face da qualidade sofrível, após passarem pelas mãos do editor, vão parar na gaveta ou no cesto de lixo. Como dói ter que falar isso, mas é o que ocorre! A isso, grosso modo, aludindo a Darwin — que disse que o homem é descendente do macaco —, dá-se o nome de “seleção natural”. Com a facilidade proporcionada por essas modalidades de publicação — e-books, tiragens sob demanda, livros virtuais na rede etc. — a qualidade caiu, porque pulam-se etapas importantes na produção editorial. Mas ainda cientes disso, esses novos autores aspiram tornar-se “best-sellers”. Não se pode dizer se este boom de escritores é uma febre momentânea ou algo que veio para ficar, mas bom seria se houvesse menor quantidade de autores produzindo obras de melhor qualidade.

Será que aquele texto que você escreveu e achou o máximo está mesmo pronto para ser publicado? Que tal submetê-lo ao olhar atento de um revisor com quase duas décadas de experiência revisando e preparando textos das mais diversas áreas? Não seria melhor publicar pelos meios tradicionais, utilizando-se da expertise e ferramentas de um editor? Não se pode generalizar dizendo que toda editora e todo editor visem apenas ao lucro. É preciso analisar o mercado e buscar a parceria certa. A revisão textual é etapa obrigatória na produção editorial e de forma alguma deve ser negligenciada, pense nisso.

 

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