O sorriso do morcego por Nilza Amaral Souza

Tenho afinidade imensa  com morcegos. Esses animais que enxergam na escuridão sempre me atraíram. Inexplicavelmente parece que a atração é reciproca. À noite quando se encontram de cabeça para baixo para recuperar energia, e os olhos luminosos clareando a noite, não resisto a tentação de acariciá-los e embrenho-me na mata ciliar próxima ao meu condomínio, o reduto dos animaizinhos, onde passo horas acariciando suas cabecinhas e suas asas pontudas. É meu segredo.
 
E foi assim que talvez pelo meu amor pelo bizarro, ou pelo olfato precioso do morcego meu protegido, que aos poucos fui me identificando com ele e apreciando seu modo de ser. Mais ainda me interessei pelos seus hábitos, quando os ambientalistas do local proibiram a exterminação da espécie, pois uma vez que eles devoram os insetos em busca do alimento primordial __o sangue, a floresta permanece saudável, livre de pragas.
Outras afinidades foram surgindo, fui me descobrindo senão morcego, vampira. No início, atribui minha letargia momentânea à preguiça, cansaço, horas de internet demais, comida muito frugal. Mas para meu espanto, tive que admitir que as horas junto ao Morceguinho, como o apelidei, energizavam meu corpo. Foi a primeira descoberta. Conseguia sugar a energia do próximo.
A segunda descoberta foi mais primordial, a que me deu a certeza de minha espécie: troco o dia pela noite. Gosto de estudar, amar, dançar, e minha vontade de viver combina com a noite, aprecio comidas vermelhas, minha preferida é o chouriço de sangue de animal, petisco muito. apreciado pela minha família italiana.
 Jamais poderia ser vegano, essa coisa da moda, pois o sangue é o que move as minhas montanhas.
Minha fraqueza me auxiliou no desenvolver de minha espécie. Médicos me recomendaram transfusões de sangue periódicas durante um certo período, por causa de uma suposta anemia. Foi então que o gosto adocicado que me vem à boca depois das transfusões, me deu a certeza. Gosto de sangue, quente, vermelho.
Sou uma vampira hitech, e na internet descobri um jogo eletrônico, um jogo de coragem que exige mutilações e flagelações dos jogadores como passagem de ritual. Entrei no grupo e, para não despertarmos ansiedade nos parentes, nos encontramos em lan houses. Os mais audaciosos se flagelam no banheiro, e eu sou a auxiliar no caso. Lambo suas feridas e o gosto do sangue desperta meu sexo selvagem. Depois dos jogos vamos a danceterias e, entre abraços e beijos, lábios carnudos feridos por alucinantes ósculos de língua e mordidas, acabo minhas noites. Entre eles há outros como eu, que ainda não se deram conta de sua verdadeira espécie. Sou mais feliz do que os que ainda ignoram, pois além de sangue que me oferecem ainda posso sugar a sua energia.
A vida continua, sou uma vampira adolescente e tenho toda a eternidade ao meu dispor. Escolho companheiros ingênuos na arte do sexo, tenho preferência por lábios quentes e grandes, e se alguém pensa que vampiros sugam sangue mordendo veias de pescoços, vive na fantasia de que vampiro é ficção. Não nego que existam os clássicos, porém, jamais poderiam usufruir das oportunidades que uma sociedade nos dá. O importante é o ¨conheça-te a ti mesmo¨.
Meu lugar predileto, o que mais gosto de frequentar, são bancos de sangue. Conheço vários doadores e muitas vezes fazemos transfusões diretas depois de uma noite de amor. Felizmente há uma grande população masculina que se excita com sexo bizarro, essa é a sorte de vampiras camufladas como eu, imaterial farto e saudável à toda prova.
Se o material humano escasseia, há frigoríficos. Sempre me ofereço para as compras diárias de minha casa, e me delicio com bifes sangrentos, carne quente e macia que despejam sangue à primeira dentada.
Minha caminhada pela vida é normal, frequento a universidade, faço medicina, e já descobri muitos iguais a mim, que ainda não conhecem o seu verdadeiro eu. Geralmente sofrem de narcolepsia, e no dia em que voltarem do estado letárgico descobrirão que sangue é vida.
Logo terei meu consultório, especializo-me em necropsias e medicina pôs mortem. Sou uma vampira moderna, que uiva para a lua em noites de lua cheia. E aguardo o vampiro que me descobrirá para sermos felizes na transcendência da vida, que será sempre trocarmos sangue por sangue.
Porém, sou fiel aos meus morceguinhos, e percebo o sorriso esticado em suas faces, quando os visito na calada da noite, a lua linda e cúmplice nos acobertando.
 
 
 

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