Vinícius de Moraes - o poeta mais popular de todos os tempos

por Ivana Lopes
Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes ou Vinicius de Moraes, como ficou conhecido é o poeta brasileiro mais popular de todos os tempos e que até hoje é lembrado e reconhecido. Grande nome da nossa literatura e também uma importante figura da música popular brasileira. Poeta e músico, Vinicius era um homem de múltiplos talentos.
Além de poesia também escreveu crônicas e fez letras de canções que se tornaram clássicos da nossa música. Sua contribuição para a nossa cultura foi imensa tanto na área literária quanto na musical. Foi um dos criadores da Bossa Nova junto com Tom Jobim e João Gilberto. Esse movimento musical que revolucionou a música popular brasileira e a projetou para o mundo, com canções que tiveram arranjos sofisticados e letras primorosas, muitas delas de sua autoria e que levaram o nome do Brasil para o exterior, a mais conhecida foi “Garota de Ipanema” com letra de Vinicius de Moraes e música de Antonio Carlos Jobim.
O poeta nasceu no Rio de Janeiro em 19 de outubro de 1913. Seu pai era poeta e ao mesmo tempo funcionário público e sua mãe era pianista. Nascido em uma família onde a música e a poesia já faziam parte do seu cotidiano, ainda criança já escrevia versos. Aos 16 anos entrou para a Faculdade de Direito, mas após se formar nunca exerceu a profissão. Trabalhou no Ministério da Educação como censor cinematográfico até receber uma bolsa de estudos do Conselho Britânico para estudar a língua e a literatura inglesa na Universidade de Oxford. Viveu na Inglaterra até 1939, foi lá que se casou pela primeira vez, ao todo, ao longo de sua vida, ele se casou nove vezes e teve cinco filhos. Com o começo da Segunda Guerra Mundial Vinicius voltou para o Brasil.Morou vários anos em São Paulo depois voltou para o Rio de Janeiro. Nessa época já era bastante conhecido como poeta e tornou-se amigo de grandes nomes da poesia como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e os escritores Oswald de Andrade e Mário de Andrade.
Em 1943 tornou-se diplomata e por causa da carreira morou nos Estados Unidos, na França e no Uruguai. Durante esse período publicou vários livros, separou-se e tornou a se casar outras vezes.
Vinicius de Moraes foi poeta e boêmio desde a sua juventude, sempre cercado de artistas e de belas mulheres, o que se tornaria quase que um modelo de vida para quem queria também ser artista naquela época. O grande poeta Carlos Drummond de Andrade falando sobre Vinicius, disse certa vez que: ” Vinicius de Moraes era o único poeta a viver como poeta”, ou seja, com uma vida que os poetas aspiram, mas que só existe nos poemas, mas que para Vinicius era a realidade, cercado de “musas” e da boemia. Seu estilo de vida em nada prejudicava sua poesia que ao contrário se tornava cada vez melhor com o passar dos anos. Das poesias do início, da sua primeira fase como poeta, de poemas longos, espiritualistas onde se percebe uma forte influência católica, cristã e mística, presentes no seu primeiro livro “O caminho para a distância” de 1933 e nos que se seguiram até chegar à sua segunda e próxima fase em “Cinco Elegias” de 1943, o poeta passou a usar novas linguagens e novas formas onde se misturavam as construções clássicas e versos livres. Nessa fase ele estava mais solto, sua poesia mais ligada ao cotidiano, retomando seu romantismo ao falar da mulher e do mundo, mas apesar desse lirismo Vinicius nunca foi um poeta alienado quanto ao seu tempo, pelo contrário. Em seus versos ele colocava sua crítica social, por exemplo frente a guerra, grande e trágico acontecimento de seu tempo, entre outros poemas que marcaram esse período destaca-se o belíssimo: “ A rosa de Hiroshima”. Além da crítica social, a poesia de Vinicius é marcada por sonetos onde ele fala da mulher e do amor, este último um de seus temas sempre recorrentes. Os exemplos mais conhecidos pelos leitores são: “Soneto de Separação” e o “Soneto de Fidelidade”.  A terceira fase da poesia de Vinicius de Moraes foi marcada pelas composições e letras de música. Vinícius compôs mais de 300 músicas. O poeta e letrista em nada diferem não são meros desdobramentos de seu talento, que é indiscutível. Mas são parte da mesma arte, a poesia. Ele “vivia como poeta” como bem disse Drummond e em tudo que fazia estava a poesia, suas belas letras são muitas vezes verdadeiros poemas musicados. Um dos muitos exemplos da poesia em suas letras pode ser visto na música “Felicidade”, onde a letra diz em um de seus trechos: “...A felicidade é como a gota / De orvalho numa pétala de flor/ Brilha tranquila/ Depois de leve oscila/ E cai como uma lágrima de amor/ ...A felicidade é como a pluma/ Que o vento vai levando pelo ar/ Voa tão leve/ Mas tem a vida breve/ Precisa que haja vento sem parar/...”
Após ser “aposentado” da diplomacia pelo governo militar através do Ato Institucional Número 5 o AI-5, o poeta passou a se dedicar inteiramente à poesia, aos seus livros e à música. Vinicius de Moraes viajou pelo mundo com seus parceiros: Toquinho, Tom Jobim, Baden Powell entre outros, fazendo shows e divulgando a música brasileira.
Além da poesia e da música Vinicius de Moraes foi atuante também no cinema e no teatro. São dele as canções da premiadíssima peça “Orfeu da Conceição” e a trilha sonora do filme “Orfeu do Carnaval”. Escreveu também poesia para as crianças, no seu livro: ”A arca de Noé” com poemas que foram escritos para seus filhos. O poeta acabou construindo uma “ponte” que ligava as crianças à poesia, muitas gerações se aproximaram da poesia levados pelos belos poemas deste livro. Esse trabalho, que já estava pronto, mas que permaneceu guardado, foi lançado em 1970 aqui no Brasil e na Itália, onde o poeta fez também muitos shows e era bastante conhecido. Na Itália os poemas do livro foram musicados e se transformaram em dois discos. Esse foi também seu primeiro trabalho em parceria com Toquinho, o último de seus parceiros de música, que ficou com ele até a o fim de sua vida. Muitos anos mais tarde o livro “A arca de Noé” foi transformado em um especial infantil para TV pela Rede Globo.
O poeta faleceu no Rio de Janeiro em 9 de julho de 1980.
Não foi à toa que Vinicius de Moraes se tornou o poeta mais popular e mais conhecido do povo brasileiro, além da extraordinária qualidade do conjunto de sua obra poética e musical e de sua enorme contribuição à literatura e a música brasileira, o poeta, com seus múltiplos talentos, soube tirar a poesia das rodas mais elitizadas e levá-la de encontro ao povo, sem perder com isso nem um pouco da qualidade, o mesmo acontecendo com a música, Vinicius escreveu sambas, se dizendo “o branco mais negro do Brasil”rompendo com paradigmas e preconceitos de classe e de raça, apesar de ser um homem muito culto, ele sabia falar, escrever e cantar para o povo, sem em nenhum momento deixar a qualidade do trabalho de lado, alguém que passou da criação de belos sambas à Bossa Nova, sua criatividade e talento eram natos, ele circulava por todos os ambientes com a mesma naturalidade. Foi o talento desse grande poeta que conseguiu provar mais uma vez que o povo brasileiro é capaz de gostar do que é bom e do que tem qualidade, e que principalmente que nosso povo merece ter entre seus escritores, poetas e artistas nomes de talento que falem da nossa cultura e da nossa gente.
 
SONETO DE FIDELIDADE
são Paulo , 1946
 
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
 
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
 
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
 
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
 
SONETO DE DESPEDIDA
Rio de Janeiro , 1940
 
Uma lua no céu apareceu 
Cheia e branca; foi quando, emocionada 
A mulher a meu lado estremeceu 
E se entregou sem que eu dissesse nada. 
 
Larguei-as pela jovem madrugada 
Ambas cheias e brancas e sem véu 
Perdida uma, a outra abandonada 
Uma nua na terra, outra no céu. 
 
Mas não partira delas; a mais louca 
Apaixonou-me o pensamento; dei-o 
Feliz - eu de amor pouco e vida pouca 
 
Mas que tinha deixado em meu enleio 
Um sorriso de carne em sua boca 
Uma gota de leite no seu seio.
 
 
Fontes de pesquisa:
Coleção Folha Cinquenta Anos de Bossa Nova – Vinicius de Moraes -Texto de Ruy Castro
www.ebiografia.com/viniciusdemoraes
www.infoescola.com/escritores
www.brasilescola.uol.com.br
www.educacao.uol.com.br – texto de Jorge Viana de Moraes de 24/03/2009
 
 
 

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Tito Mellão Laraya

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