A magia da cidade por Rosa Marques

    Era o segundo Natal que David e Nayara, passavam longe do seu país e da família, desta vez ali na ilha, onde estavam a viver há cerca de quatro meses. No entanto, eles não passariam sozinhos, este Natal; agora tinham o bebé, que era a luz das suas vidas. Alexander tinha sete meses, olhar penetrante e um sorriso pronto que cativava a atenção de quem se aproximava dele.

Na ausência da mãe, David cuidava do bebé, principalmente nos dias em que estava de folga; fazia a papa, o puré, dava banho, mudava as fraldas. Ao fim da tarde, saía com o bebé no carrinho e passava no salão de estética onde Nayara trabalhava, ia quase sempre perto da hora da saída dela, depois voltavam para casa juntos. Quando havia poucos clientes, entrava com o carrinho do bebé, e Nayara, no intervalo entre uma e outra cliente vinha até junto deles, esbanjando sorrisos, e brincava com o menino. Carinhosas, algumas clientes aproximavam-se também do bebé e, sorridentes, distribuíam miminhos. Se calhava o salão estar cheio e Nayara ainda muito ocupada, David aguardava na porta, esperava uns breves segundos… até ela reparar neles. Sorrindo, ela acenava-lhes. Só então ele se afastava com o filho, dava uma volta, mas mantinha-se por perto, à espera de uma hora mais calma, então voltava para que a mãe pudesse pegar no menino por uns momentos. Andavam envolvidos num encantamento que, por vezes, parecia-lhes que estavam a viver um sonho.

    Sem trabalho e cansados de uma vida de privações de toda a ordem, num país destruído pela guerra, os dois arriscaram emigrar para Portugal. Chegaram entusiasmados, trazendo com eles apenas a esperança que os alimentava desde o dia em que começaram a planear a viagem. Ansiavam por paz, viver e trabalhar num país sem guerras… onde pudessem caminhar sem medo e em liberdade pelas ruas. Na altura, eram apenas namorados, conheciam-se há pouco mais de um ano e foi com algum temor que a família de ambos os viram partir. Nayara não conseguia esquecer a expressão do rosto da mãe, nem as suas lágrimas, quando se despedira, e ela dissera-lhe que tinha o pressentimento de que não voltaria a vê-los. A lembrança desta premonição entristecia-a, e sempre que podia telefonava e enviava fotos dela e de David, e depois já com o bebé bem juntinho a eles.

    Conseguiram trabalho, no mesmo hotel, ele como cozinheiro, ela no salão de estética e beleza, fazendo massagens, limpezas de pele, manicura, depilação… para as quais tinha feito formação na sua terra. Exibia o seu diploma com orgulho, e assim que começara a trabalhar mostrou que tinha alguns conhecimentos e que gostava do que fazia. Passado pouco tempo, já ninguém se questionava ou queria saber se ela tinha ou não diploma; as clientes surgiam dia após dia… saiam satisfeitas e voltavam… era o quanto bastava para a entidade empregadora.

    No segundo ano, o director do hotel falou com David; precisavam de um cozinheiro na unidade hoteleira que a empresa estava prestes a inaugurar na ilha da Madeira e tinham pensado nele. Queriam que ele orientasse e ensinasse os novos funcionários, até tudo estar organizado e a correr bem, para isso teria de ficar na ilha pelo menos um ano. Pagavam-lhe um bom ordenado e davam alojamento para ele, a mulher e o filho, enquanto permanecessem na ilha. Sobre a Madeira, disseram-lhe apenas que era um lugar bonito à beira-mar, com um clima ameno e onde as pessoas eram afáveis. Nayara havia sido mãe há pouco tempo e não  estava a trabalhar, preocupou-a aquela mudança repentina, principalmente a viagem com o bebé tão pequenino ainda. Partiriam no fim do mês seguinte, dissera-lhe David, e não podia recusar sem correr o risco de desagradar ao director, e isso seria prejudicial, pois tudo o que eles precisavam era de trabalho e o dinheiro que lhe pagavam a mais compensava.

    Prepararam a partida e, pouco tempo depois de chegar à ilha, Nayara procurou trabalho; não teve dificuldade em encontrar. Contribuiu para isso a experiência que adquirira durante o tempo que trabalhara no hotel do continente. Decidiram, então, procurar uma creche para deixar o filho nos dias em que ambos estivessem a trabalhar, mas sempre que pudessem ficariam com ele, ou iriam buscá-lo mais cedo.

    Com o mês de Dezembro… chegou também o dia em que se acenderam, pela primeira vez, as luzes da cidade com as decorações natalícias. David foi o primeiro a ver. Da varanda do apartamento, situado na calçada de Santa Clara, e deslumbrado, chamou por Nayara, que estava na cozinha, atarefada, a preparar o jantar. Já tinham ouvido falar na festa de fim de ano, que ali na ilha era considerada uma das mais importantes, e das muitas pessoas que vinham à ilha nessa época festiva, mas nunca imaginaram nada assim. Estavam surpresos, maravilhados… abraçavam-se… contagiados pela alegria que lhes proporcionava o esplendor da cidade iluminada.

    Logo após o jantar, agasalharam o bebé, colocaram-no no carrinho e saíram. Queriam percorrer as ruas da cidade assim iluminadas... misturar-se com as outras pessoas… estar presente e desfrutar da magia daquele espectáculo magnífico de luz e cor. Enquanto David se responsabilizava pelo carrinho do bebé, Nayara, com o telemóvel tirava fotos… queria fotografar tudo: as árvores decoradas que ladeavam as ruas, os prédios, os lindos motivos de Natal ornamentado toda a cidade… Passaram no largo do Colégio, desceram até à avenida do Infante e por lá ficaram algum tempo a ver o presépio e todas as bonitas decorações alusivas ao Natal que havia ao longo daquela rua. Seguiram depois até ao cais, onde estavam as árvores luminosas, imensos focos de luz intensa e atractiva, que os turistas gostavam de fotografar. Do cais podiam ver todo o esplendor da cidade; sentaram-se num dos bancos e Nayara enviou mensagens para a família e as amigas, e à medida que estas eram retribuídas eles aproximavam-se mais, e assim com as caras quase encostadas, riam felizes e liam juntos.

    Sublime! Comentavam com uma alegria que não conseguiam conter, depois do que tinham passado era uma bênção encontrar um lugar assim tão bonito. Era ali que queriam viver e criar o filho. Não havia nada melhor do que aquela paz… a liberdade de poder caminhar pelas ruas sem medo. Sorriam às pessoas que olhavam o bebé no carrinho, e estas sorriam-lhes também, algumas abeiravam-se do menino, mimando-o com falas carinhosas. Nessa noite decidiram que, acontecesse o que acontecesse, ficariam a viver na ilha; já ambos falavam um pouco de português, o suficiente para entenderem e serem entendidos. Faziam planos… trabalhando juntos, haviam de conseguir economizar o dinheiro suficiente para comprar uma casa ali na ilha. Porém, pensavam nos familiares que viviam na Moldávia, o país de origem, e sentiam tristeza por eles estarem numa zona de conflito. Apenas essa preocupação vinha ensombrar a alegria daquela noite repleta de magia, em que eles, os três, passeavam pelas ruas claras e luminosas da cidade do Funchal. No carrinho, Alexander já dormia e Nayara, aconchegava a mantinha para que o menino não apanhasse frio durante o percurso de regresso a casa.

 

 

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Tito Mellão Laraya

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