Ambiguidades - 1 Lugar no concurso de textos anonimos do FLAL

Hoje não te escreverei. Não esvaziarei meu sentimento tão rosa com palavras cinzas. Nem encherei meu peito com as cinzas das palavras ditas – mal ditas. Não farei do meu coração um sepulcro. Deixarei sem nada, aberto. E o vento passará e me contará uma linda história que um dia eu senti. Hoje viverei o dia. Viverei cada segundo do dia. Sentirei cada sensação. Cada alegria. Cada angústia. Saberei de cada pensamento. Ouvirei cada voz em mim.

Não tentarei me segurar no que já não há. Nada me prende. Nada, nada, nada. Apenas me solto. Desfaço as amarras. Desato meus nós, um a um. Hoje eu paro: quero ver a vida acontecer. Quero um tempo. Sem cobranças. Sem explicações. Quieta, sem mais barulhos. Sem mais arroubos. Sentir o movimento do meu corpo - vivo. Preciso ser eu comigo. Só ser. Ser só. Com tudo que sou. Quero ser colorida outra vez.

Não há mão me amparando. Não há um deus me cuidando. Não há luz no fim do túnel – a vida acontece é dentro do túnel. Sou eu por mim. E só. Olharei para as coisas como elas são. Hoje não farei alarde. Nem vãs tentativas tentarei. Nada voltará a ser o que já foi. Nada nunca volta. O tempo é sempre outro tempo. As pessoas são sempre outras pessoas - ainda que continuem sempre as mesmas. Tudo muda o tempo todo. No próximo minuto que começará nada mais será igual. Tudo transitório, passageiro, impermanente. Não há para o que voltar. Eu hoje – imanente, presente.

Não. Eu hoje não vou te escrever, nem te responder, nem te chamar, nem te ofender, nem te querer, nem te deixar ir, nem te amar, nem te odiar, nem te esquecer, nem lembrar teu jeito, nem te desprezar, nem sentir tua falta, nem desejar te falar, nem tentar te convencer, nem te pedir perdão. Não vou nem pensar em você.

Hoje não questionarei se é crime amar. Não questionarei a minha entrega. Nem questionarei por que ainda espero tanto. Ainda aceito tanto. Ainda quero tanto. Hoje deixarei que o vazio me preencha. Deixarei que o silêncio me tome todas as palavras, para que eu não diga mais palavra nenhuma. Que eu cale tudo em mim. Hoje quero ser. Quero ter um tempo imóvel. Quero a morte simbólica de um pedaço em mim, de algo que já foi. De algo que não volta. Só hoje me permitirei sentir cada gota de saudade. Deixarei doer tudo que tiver para doer. Ficarei melancólica o quanto eu queira. Depois, sentirei orgulho por continuar.

Estou cansada. Nada farei hoje. Apenas hoje.

 

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Tito Mellão Laraya

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