Rex, o cão de Daniel, apresentado pela autora Rosa Marques

Naquela manhã de segunda-feira, Dona Carmo a professora de Português do sexto ano, já por duas vezes mandara calar a turma. Bem se cansava ela, mas de pouco lhe servia. Por breves momentos os alunos faziam silêncio, mas logo voltavam às conversas e em poucos minutos, um rumor crescente enchia toda a sala.

Os risos abafados, seguidos dos bilhetinhos passados de mão em mão e até pelo ar… e por vezes o arrastar de cadeiras, que lhe punham os nervos em franja. O Daniel e o André não paravam de conversar, ali mesmo na carteira da frente, bem debaixo do seu nariz, um cochichar irritante que parecia não ter fim. Perturbavam toda a turma, e principalmente a ela que precisava de silêncio para explicar a lição. Se continuassem, teria que separar aqueles dois, que normalmente, eram bem comportados e bons alunos, mas naquela manhã estavam impossíveis. Chamá-los-ia no intervalo, teriam que lhe explicar o motivo de tanta conversa durante a aula, caso contrário escreveria na caderneta uma nota aos pais.
Daniel e André falavam dos filhotes de Labrador da cadela Jade, que tinham nascido no sábado de manhã. Uma ninhada de quatro cachorrinhos, todos de cor castanho chocolate como ela. Às perguntas de Daniel, André não resistira a contar todos os pormenores. Mal se levantara soubera pela mãe que os filhotes já tinham nascido e correra para vê-los, eram ainda muito pequenos, e o pai andava atarefado a preparar um sítio mais cómodo onde eles pudessem ficar. Acontecimento muito esperado por Daniel, que sonhava ter um cão. Duas semanas antes André, falara-lhe nas crias que estavam para nascer e sabendo como Daniel gostava de cães, prometera-lhe um dos cachorrinhos. A mãe tinha-lhe dito para falar na escola, perguntar se algum dos colegas queria ficar com um dos filhotes de Jade, que nasceriam em breve, havia, porém, uma condição; tinham de gostar de animais, para que pudessem tratar deles com amor e responsabilidade. Entusiasmado, Daniel todos os dias perguntava a André quando era que estes nasciam? Agora sabendo que já tinham nascido, não via chegar a hora de poder ver os cachorrinhos. Combinou com André, para naquele mesmo dia, depois das aulas da parte da tarde, passar lá em casa dele para ver os amorosos bebés.

Daniel gostava de animais e sempre os tratava com carinho; brincava com eles e divertia-se com as suas brincadeiras. Tinha em casa um gato, que se chamava Sansão. Um persa lindo, de pêlo grande e fofo, em tons de castanho claro e branco, enorme, gordo de tanta preguiça. Deambulava vagarosamente pela casa, entrando e saindo conforme lhe apetecia. Estendia-se no sofá, ou no chão por cima dos tapetes e dormia, dormia… Havia dias em que, ao chegar a casa da escola, Daniel ia encontrá-lo no seu quarto, estendido em cima da sua cama de uma forma engraçada, ou semiescondido por entre as almofadas. Fazendo-lhe festas, Daniel chamava-lhe dorminhoco e preguiçoso. Sansão, como que a confirmar o que Daniel dizia, esticava as patinhas e pachorrentamente, abria a boca, alongava o dorso, depois seguia Daniel até à cozinha, a ver se ele lhe oferecia algo do seu almoço.
O sonho de ter um cão em casa, ganhava cada vez mais forma no pensamento de Daniel, e já o tinha como certo, depois de ver os engraçados filhotes de Labrador. Uma grande alegria tomara conta dele. Entusiasmado foi à biblioteca pesquisar alguns livros que falavam sobre cães, queria saber mais sobre o assunto, aprender como tratar e cuidar deles e o que podiam ou não comer. O pior, seria para convencer o pai a deixa-lo ficar com um. Pela mãe, Daniel sabia que não encontraria obstáculos, conhecia-lhe bem o coração e como amolecia a qualquer pedido seu, porém, o pai não simpatizava com cães. Daniel não sabia o motivo, mas ouvira-o um dia dizer que não queria cães em casa. Era ainda muito pequeno, mas lembrava-se bem; por isso nunca lhe pedira para arranjar um cão, na quase certeza de que o pai negaria esse pedido. Sendo agora mais crescido, era diferente, podia ele próprio cuidar do cão, dar-lhe a comida, o banho e atenção e via-se já a passear com ele. Por ali mesmo, nos arredores da casa, depois pela fazenda e pelos montes, como costumava fazer sozinho. Nas tardes grandes e nas férias, se fazia bom tempo, saia para explorar os campos nas proximidades da casa… espreitar as perdizes, e uma garça branca, que quase sempre parava perto dali. Às vezes sentava-se no alto de um monte, com o olhar perdido na imensidão do horizonte, em silêncio, observando as mudanças que se operavam na tarde, à medida que o sol declinava. Até que, ouvia a voz da mãe a chamá-lo, para que regressasse a casa, por ser quase horas de jantar. A mãe sempre tão protectora e cheia de receios, quando ele se demorava um pouco mais. A Daniel, custava-lhe a entender porque é que a mãe se preocupava tanto… chamando-o para saber onde ele estava, querendo-o sempre por perto.
Nos dois meses que se seguiram, Daniel frequentou assiduamente a casa de André. Depois das aulas ia com ele para ver os cachorrinhos, agora maiores e mais bonitos, amorosos. Já comiam um pouco de tudo, estava na altura de separá-los de Jade, dizia a Senhora Almerinda mãe de André. Fazia tempo que Daniel escolhera aquele que iria ser o seu grande amigo e companheiro de brincadeiras. Apesar de serem todos do mesmo tom de castanho, havia um que se destacava dos outros, por ser mais pequeno e ter os olhos esverdeados como Jade. Muito esperto, corria, corria… para acompanhar os irmãos, fora esse o escolhido de Daniel. Chamar-lhe-ia Rex, e André concordou, que era um bom nome para o cão. Rex, como o dinossauro do filme « Jurassic Park» que ambos tinham visto. Apesar de terem ficado impressionados com a violência e devastação causada pelos enormes dinossauros, a rapidez do dinossauro Rex fora tema de muitas conversas entre os colegas lá na escola.
Nos dias em que Daniel ia ver os cachorrinhos, a senhora Almerinda estava quase sempre em casa. O carinho a dedicação e paciência com que ele tratava as pequenas crias… afastou qualquer dúvida ou receio que a senhora pudesse ter em relação a ele. De forma que ela não hesitou em entregar-lhe o pequeno filhote, sabendo que este ficaria em boas mãos e seria bem tratado. Providenciou uma pequena caixa de papelão, fez vários orifícios à volta, para entrar ar, forrou o fundo com um paninho de lá macio e quentinho, depois colocou lá dentro o pequeno e amoroso Rex. Entregou a caixa a Daniel, que pegou nela cuidadosamente, como quem pega num tesouro raro ou precioso cristal. A senhora Almerinda fez ainda algumas recomendações em relação à comida do cão e, desejando-lhe boa sorte, pediu que lhe fosse dando noticias, pois queria saber se o cachorrinho estava a adaptar-se bem. Sempre que nascia uma ninhada, tornava-se necessário arranjar quem quisesse ficar com as crias, porque tinham, além da cadela Jade, mais dois cães em casa. Ficar com mais algum seria impensável, explicava a mãe de André. Custava-lhe a separar-se deles, e não era sem tristeza que ela e o marido os viam partir. Porém, animava-os saber que seriam a alegria de outras crianças de outras famílias, que encontrariam no cão, um grande amigo, um fiel e carinhoso companheiro para a vida.
Quando Daniel chegou a casa, a mãe estava na cozinha, a preparar o jantar. Colocava pratos e os talheres na mesa. Pela porta aberta que dava para a rua, Margarida avistou o filho, que entrava pelo portão. Vinha satisfeito e sorria … além da mochila com os livros da escola que trazia nas costas, tinha com ele uma pequena caixa de papelão apoiada no braço esquerdo, e que segurava também, com a mão direita. Margarida não mais desviou o olhar do filho até ele entrar na cozinha, pressentindo logo que ali havia mistério. Daniel entrou sempre a sorrir para a mãe, que lhe perguntou:
__ Que trazes nessa caixa?
Sem dizer uma palavra, Daniel aproximou-se mais da mãe e cuidadosamente foi abrindo a caixa, perante o olhar atento e curioso dela, que expectante aguardava. E tal como um mágico que espera a todo o momento surpreender a plateia com sua magia… Daniel levantou primeiro uma parte da tampa e logo de seguida a outra. Margarida ficou perplexa e maravilhada com o que viu! Uns grandes olhos, lindos, brilhantes, olhavam para ela com ternura… tão vivos e tão ternos! Ela não pôde deixar de exclamar:
__ Que lindo! ___ E quis saber tudo sobre aquele lindo cachorrinho bebé, que estava ali, na sua cozinha, agora já fora da caixa, andando de um lado para o outro. Sim, era lindo, lindo… que ternura, tão fofo… parecia uma bolinha… e que lindos olhos! …
Daniel nunca chegou a saber o que a mãe dissera ao pai sobre o cão. Soube apenas que, estando no quintal com o Rex, que andava já a explorar tudo o que encontrava, o pai chegou junto dele, e passando-lhe a mão na cabeça sorriu. Perguntou-lhe se o cão já tinha nome, depois pegou nele, analisou-o e disse ao filho que o cão cresceria bastante, pois era bem estruturado e tinha patas grandes e fortes. Poucos dias bastaram para que o dócil Rex se adaptasse à nova casa e à nova família. Nas primeiras noites, Daniel deixara-o ficar junto de si, no seu quarto, numa caminha improvisada, levantando-se para pegar nele quando o ouvia lamentar-se. Dedicou-lhe todo o carinho e atenção, deixando-o aos cuidados da mãe apenas quando saia para as aulas. Margarida olhava aquela adorável criatura, falava com ele, pegava-o ao colo. Ele segui-a por toda a casa e pelo quintal, quando ela ia estender a roupa a secar. O gato Sansão olhava desconfiado e com cara de poucos amigos para o Rex. Sem paciência… refugiava-se das suas investidas em cima do sofá ou noutro sítio mais alto. Assim de longe e a salvo, observava toda aquela euforia do pequeno traquina, que pela casa remexia em tudo o que via…

 

 

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Tito Mellão Laraya

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