Luzia-Homem - marco zero do regionalismo

por Gilmar Duarte Rocha

Na transição do romantismo para o realismo, no panorama da literatura brasileira do final do século 19 e início do século 20, registra-se com clareza a forte influência da escola europeia, a francesa, em especial, a inglesa e a portuguesa, sobressaindo entre os lusitanos Eça de Queirós, este, por simbiose, também influenciado por Flaubert e seus correligionários.

            Tangenciando esse novo e criativo estilo de compor prosas, onde predomina a fidedignidade da realidade, o objetivismo, o materialismo, a veracidade, o universalismo e cientificismo, surgia no Brasil um gênero congênere, denominado de naturalismo, onde o prócer desse apêndice do realismo seria sem sombra de dúvidas o cearense Domingos Olímpio (1850-1906), natural de Sobral, bacharel em Direito pela Universidade de Recife, tendo feito carreiracomo jornalista, promotor público e deputado pela Assembleia provincial cearense. Trabalhou algum tempo no Pará e, por motivos profissionais, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu advocacia e escreveu sobre assuntos políticos e literários para diversos periódicos da então capital federal.

            Após publicar algumas obras de ficção, dramas de teatro, livros de história e biografias, que não obtiveram muito êxito de público, lança à luz, apenas três anos antes de sua morte, o romance Luzia-Homem, que seria sua obra definitiva e um símbolo na trajetória do naturalismo-realismo, corrente literária que teve outros escritores de revelo como Inglês de Souza (Contos amazônicos; Os missionários), Aloísio de Azevedo (O mulato; O cortiço), Raul Pompeia (O ateneu), Adolfo Caminha (Bom crioulo) e Aderbal de Carvalho (A noiva).

            Luzia-Homem, além de trazer todos os ingredientes do naturalismo, como a relação nem sempre harmoniosa entre o homem e a sociedade, descrições minuciosas, problemas sociais e patologias humanas como crime, traição e adultério, insere no contexto literário brasileiro o romance de região em toda a sua profundidade, descortinando para o leitor  – cosmopolita em sua maioria - um habitat desconhecido e o modus vivendi pessoas de um lugar que ele (o leitor de então) apenas imaginava em lenda ou, para aqueles que leram Os sertões, de Euclides da Cunha, publicado um ano antes, a transposição em novela da segunda parte da magistral epopeia euclidiana.

O livro de Domingos Olímpio conta a história de uma bela e rude mulher retirante da seca, que se estabelece na cidade de Sobral no ano de 1876, já na época um oásis de prosperidade no meio do deserto áspero, desolado e carente do nordeste do Brasil. Ela transporta na sua bagagem a rudeza e a austeridade da mulher sertaneja, pouco afeita a tarefas preconcebidas para as moças da cidade, o que a faz, de imediato, objeto de comentários jocosos e ínvidos, como:

            “Aquilo nem parece mulher fêmea”, observava uma velha alcoviteira e curandeira de profissão. “Reparem que ela tem cabelos nos braços e um buço que parece bigode de homem...”

            Era o tipo de mexerico recorrente entre as damas do lugar, sem contar avaliações singulares, como a do personagem Paul, “um francês misantropo e excelente fabricante de sinetes”, como o define o autor:

            “Passou por mim uma mulher extraordinária, carregando uma parede na cabeça”

            Hipérboles como essa gravitam em todo o enredo, pois Luzia não se limitava a tarefas domésticas, afeitas a mulheres de origem humilde da época, como serviços caseiros de limpeza; cozinha; plantação e regado de hortas; cuidadora de animais de quintal; fazedora de renda; artesã de artigos de palha, cipó e barro e outras coisas similares. Luzia não: era vista ora conduzindo numa tábua sobre a cabeça cinquenta tijolos arrumados para uso numa obra; ora carregando no ombro uma enorme jarra d’água com peso equivalente a três potes; ou removendo sozinha uma soleira de granito da porta de uma prisão, trabalho recusado por peões robustos e de boa compleição física; enfim, tinha afinidade com trabalhos hercúleos, mais adequados a tipos rijos e másculos.

            Mas Luzia, embora fizesse questão de ostentar esse invólucro, trazia no seu âmago a candura e a doçura da mulher, qualidades que lhe eram acrescidas por uma beleza agreste, diferente, exótica, que chamava à atenção de homens sensíveis, como o personagem Alexandre, por quem devota um amor platônico, como também por homens desprovidos de sensibilidade alguma, como o rude e escuso soldado Crapiúna, que passa a persegui-la desde a primeira vez que a encontra. Em princípio paparicando-a com palavras de bajulice e lisonja. Depois, com missivas de cunho fanático e doentio:

“Minha Santa Luzia – Esta tem por fim unicamente dizer-lhe que há de se arrepender da sua ingratidão, e quem lhe diz isso é o seu amante fiel até a morte – Crapiúna

            Por fim, quando o homem vê que o seu amor obcecado não tem retorno, não é correspondido, passa a ameaçar o seu objeto de desejo com expressões de ranço de ódio e vingança:

            - Foi o diabo que te atravessou no meu caminho. É a última vez que me empatas, peitica do inferno!

            Enfim, afora o enredo ser regado de invídias e emulações; de encontros e desencontros de sentimentos; de artimanhas e ardis; de devoções e covardias, o escritor acaba construindo um amplo painel de personagens brotados do horror da seca. Uns, sôfregos por uma vida de honradez; alguns, calejados e conformados com o mormaço e a aridez de oportunidades; outros, deformados pela cultura incipiente e ausência absoluta de civilização. Com efeito, uma obra espantosa para os padrões literários da época e que, por certo, serviu de norte para uma geração talentosa de letrados nordestinos que despontaria trinta anos depois. Gente da casta de José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz e outros. Aliás, todos eles bem orientados pela doutrina sustentada por Gilberto Freyre, “que defendia a emancipação da literatura brasileira dos laços que a prendiam ao estilo europeu de costurar peça de ficção,”¹ laços esses que nem os modernistas de 1922 conseguiram romper, já que a base da escrita deles tinha como esteio o futurismo do italiano Marinetti.

            Em relação à crítica, o romance Luzia-Homem, embora considerado clássico e de grandeza inconteste, foi recebido com algumas reservas por parte dela, “o principal defeito do romance consiste no desnível entre a concepção e execução, na grandeza daquela, na franqueza desta”, como observou Lúcia Miguel Pereira. “Em Luzia-Homem há defeitos, do autor, da escola, da época. Psicologia fraca, frequentemente demasiada crueza, nem sempre adequado, às vezes vibrante e excessivamente requintado”, como atestou Afrânio Coutinho, embora ele próprio tenha arrematado “que o romance tem lugar certo na galeria do regionalismo brasileiro”, opinião também corroborada pelo escritor e crítico Sérgio Milliet.

            Por conclusão, ainda que haja imperfeições estruturais na composição da peça Luzia-Homem – o que se poderia dizer assertivamente do romance O cabeleira, do carioca de nascimento e pernambucano por adoção, Franklin Távora, que pecou pela descontinuidade e pela redundância, o que impediu, na minha modesta opinião, que o seu produto galgasse o posto de gênese do romance regional -, o livro de Olímpio configura-se definitivamente o marco zero de um gênero rico em probabilidades para a criação de tipos humanos e de horizontes vastos e infinitos para expansão das asas da imaginação, como Guimarães Rosa bem o materializou.

1- ABC de José Lins do Rego – Bernardo Buarque de Holanda – Editora José Olympio

 

 

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