Anjo de Guerra - primeiro lugar no concurso Infantojuvenil do FLAL

  O cheiro dos corpos em decomposição me sufocava mais do que a nuvem preta de fumaça que se fazia de cobertor. Meus olhos ardiam, e a boca, seca, tentava sem sucesso emitir um grunhido qualquer. Minha cabeça girava desorientada, seguindo um mantra inconsciente. Mantenha-se viva, dizia. Quase impossível. Nas mãos, um amuleto: uma boneca de pano pálida, suja e desbotada... A preferida de Ana.
  Sobre mim, um prédio inteiro. Imersa aos escombros e confundida com um pedaço de parede qualquer, beijava o chão e chorava. Chorava porque precisava encontrar Ana, e porque precisava de minhas lágrimas para beber e fingir matar a sede. Por uma pequena abertura entre os destroços e o chão, espiava a grande concentração de pessoas ao redor. Estavam fugindo dos horrores da guerra, a esperança os iluminava – pena que não podiam fugir das próprias lembranças. 
  Eu estaria longe também, não fosse Ana. Salvar minha irmã era o que me mantinha viva, soterrada naquela imensa construção. Pensava em como ela estaria se sentindo, sozinha e perdida no meio da fuligem e das cinzas. Minha irmã... Tão inocente para entender a dimensão dos acontecimentos. Ela fazia parte dessa dança fria e violenta, a guerra era o seu quintal e a infância ficara esquecida. Não tinha tempo para isso, brincadeiras poderiam ser mortais.
  Em nosso último momento juntas, disse-lhe para correr, muito embora o alarme do ataque aéreo tenha abafado minha voz. As escadas do prédio onde morávamos estavam abarrotadas. Era eu ou ela. Uma teria que ficar para trás. Lembro-me dos seus olhos verdes virando-se para mim, enquanto era arrastada pela multidão que fugia. Ela entregou-me a boneca, com lágrimas tímidas marcando a bochecha. 
- Prometa que vai me buscar – sussurrou, apertando seu corpo contra o meu. 
  Eu prometo, Ana. Vou ficar viva, por você... Tentei dizer, mas não consegui proferir em voz alta. Precisava dar esperança àquele anjo órfão, cujo sangue era o mesmo do meu. Dei-lhe um último abraço apertado, acariciei seu nariz e a empurrei no fluxo da multidão escada abaixo. Fiquei sozinha com a boneca e o prédio cedendo sob meus pés. 
  Uma voz interrompeu minhas lembranças e me fez voltar aos escombros onde estava. Estava ali há dias ou há horas? Não importava mais.  Um par de olhos verdes muito familiares me espiavam pelo vão entre o prédio e o lado de fora. As pessoas que passavam atrás dela sumiram da minha vista. Por um momento, a única coisa que ouvia era o abafado batimento do meu coração. Ali, naquele pedacinho de inferno, eu só conseguia enxergar aqueles olhos. Meu último pedaço de lar.
   Ela estava com roupas limpas e brancas, e as bochechas, vermelhas e sadias, emolduravam um sorriso infantil. 
- Amira! – disse, e percebi que não era a primeira vez que falava. Saí do transe. Ana, tentava responder, mas não conseguia. Como ela me achara? - Não tenha medo, Amira. Vim te salvar. – Ela estava serena e sorridente, não se dava conta do caos ao seu redor.         
  Eu queria sair dali, abraçá-la, protegê-la... Fugir para bem longe e dar a ela a vida que merecia.Me contorci, me espremi entre os escombros, mas nada funcionava. Ela, ali fora, segurou minha mão e gritou palavras de incentivo.
   A correnteza de pessoas tomava as ruas e fugia, aterrorizada por mais um estrondo familiar. À medida que a voz de Ana era abafada pelo barulho que crescia em uma velocidade espantosa, o medo me dominava por completo. Consegui sussurrar um “Corra!”, mas Ana não se moveu. Ela apenas segurou  mais forte minhas mãos e esperou. Senti o restante do prédio desabar mais uma vez sobre mim. O novo míssil atingira o prédio em cheio, meus pulmões estavam vazios.
 Respirar estava quase insuportável, minhas forças se concentraram nas mãos de Ana. Meu corpo inteiro tremia em espasmos, e vi um rastro de sangue escorrer por minha perna. Tentei tapar os olhos da minha irmã, mas ela afastou minhas mãos. Ofegando, enrolei o vestido da boneca no ferimento. O espaço ficava cada vez mais apertado, e minha audição era abafada. 
Um nó se formou na minha garganta. Eu não poderia deixar Ana ali, vendo seu último pedacinho de família se esfacelar bem à sua frente. Ela continuava calma, aquecendo meu corpo com o olhar. E sorria. 
Uma força me invadiu por completo. O instinto de proteção falou mais alto, e decidi agir.  De repente, me senti leve: meus pulmões dilataram e o ar era limpo. Sem fuligem, sem sujeira. A saliva encheu minha boca numa cachoeira, minhas pernas já não doíam mais. Soltei as mãos de Ana, e, em uma força sobrenatural, empurrei os destroços que me prendiam. 
Ela me ajudou a ficar de pé. Cambaleante, abracei-a, incrédula, e sorri. Escapáramos novamente. Agora, era só seguir a multidão e dar um novo rumo a nossas vidas. Chamei minha irmã, mas ela, de novo, não se moveu. Apontou para a boneca no chão; chamuscada e depenada, era só mais um item na coleção de destroços. Desviei o olhar daquela ideia dolorosa de infância roubada, mas Ana insistiu.
 - Olhe de novo – ela falou, firme. 
 Chamuscada e depenada, pensei. Mais um item na coleção de destroços. Chamuscada e depenada, chamuscada e ... Ela fitou-me nos olhos, com sua serenidade inquietante. 
- Eu vim te buscar, Amira. Vamos embora daqui, é hora de encontrar papai e mamãe. Ela apontava para uma luz intensa atrás de nós. Virei-me para ver o que era e entendi. 
 Juntas, fomos embora, para nunca mais voltar. Finalmente, teríamos paz.  
 
Texto por: Amanda de Aguiar Piazza; idade: 16 anos; série: 3º ano do Ensino Médio. Escola: Educandário Imaculada Conceição – Florianópolis.
 
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