Verdadeiros Pais - por Rosa Marques

    Mal chegou da cidade naquela tarde Zéza correu a casa da irmã, ansiosa por contar-lhe a novidade. Uma alegria interior, segredava-lhe que era uma boa notícia o que tinha para contar à irmã. Àquela hora encontraria Elisa ocupada na lida da casa, ou já sentada a bordar, junto à soleira da porta como era seu costume. Abriu o portão e foi entrando ao mesmo tempo que a chamava.

Elisa passava a ferro na mesa grande da cozinha e no momento em que Zéza assomou à porta, esmerava-se a fazer o vinco nas calças de Joaquim seu marido. Por cima de um pano branco que colocara para proteger o tecido das calças, Elisa passava e tornava a passar o ferro de engomar, cuidadosamente até o vinco ficar perfeito. Zéza admirava a irmã pela perfeição que colocava em tudo o que fazia, também pela sua firmeza de carácter e seriedade com que tratava todos os assuntos. O bordado de Elisa era perfeito considerado um dos melhores do sitio e suscitava nas outras mulheres uma certa inveja, comedida porém. Não fosse aquela incompletude, uma mágoa profunda a ensombrar a vida de Elisa e odiá-la-iam certamente. Mas algo faltava a Elisa e esse facto era suficiente para que as outras se condoessem dela, e por vezes a tratassem com comiseração. Mais nova que Elisa três anos, e mãe de cinco filhos Zéza acostumara-se a fazer as tarefas da casa depressa, para dar vencimento a tudo. Para que os filhos fossem para a escola sempre asseados e limpos, e o marido encontrasse a comida pronta, a casa arranjada quando voltasse do trabalho. Dois dias por semana trabalhava na casa de Dona Maria do Amparo, no arranjo da casa.

      ___ Vieste hoje mais cedo Zéza?

    ___ Não mana… acabei de chegar, e vim logo por que Dona Maria do Amparo pediu-me para falar contigo e com Joaquim. Surpresa Elisa ergueu o olhar e fixou a irmã com curiosidade. Depois foi colocar o ferro de engomar no descanso junto à lareira e veio sentar-se junto de Zéza, atenta ao que esta dizia:

     __ Que havia uma menina, órfã de mãe, tendo apenas como família uma avó pobre e doente. Esta achando-se sem condições para cuidar da pequenita, pedira ajuda às irmãs Clarissas. Mas há  pouco mais de uma semana o estado de saúde da avó agravara-se e esta fora internada. As Clarissas procuravam agora uma família que pudesse cuidar da criança, que a estimasse, talvez perfila-la um dia mais tarde se assim o desejassem. O pai um doidivanas sem cabeça para governar vida sumira nesse mundo de Deus, ainda a menina não era nascida.

    À medida que Zéza falava um brilho novo surgia nos olhos de Elisa, uma sensação nunca antes sentida percorria-a, ao mesmo tempo que, a acometiam alguns receios.

    ___ Achas que poderá resultar mana Zéza? ___ Eu e o Joaquim estamos a envelhecer, será que ainda somos capazes de criar uma criança? ___E se o pai um dia mais tarde aparece a reclamar os seus direitos?

    ___ As coisas arranjavam-se de forma, a que ele nunca soubesse quem tomara conta dela. ___ E depois mana Elisa, como poderia tal homem cuidar da filha, interessar-se por ela, se desprezou a pobre da mãe pouco depois de saber que ela estava grávida?

      Levantando-se Elisa foi colocar a chaleira ao lume com água para fazer café. Colocou uma toalha na mesa e sobre ela o pão feito em casa… a manteiga. Tirou duas chávenas do armário, trouxe a fruteira com as maçãs e colocou-as também sobre a mesa. Em sua mente um turbilhão de ideias atropelavam-se umas às outras. Antevendo já uma criança naquela casa Elisa pensava, qual o quarto que arranjaria para a menina, o que seria necessário comprar para torná-lo mais confortável? Porém faltava ainda falar com Joaquim e Elisa sabia que apenas o que ele dissesse seria feito.

 

   ___ Uma criança que não é do nosso sangue Elisa, é um risco. ___ Não se lhe conhece a casta nem o sangue que lhe corre nas veias…

    ___ É ainda de tenra idade Joaquim e sendo ensinada por nós, tornar-se-á uma mulher de bem, poderá amparar-nos na velhice. Há-de casar e ter filhos que serão nossos netos, darão alegria a esta casa e a nós…

   Pensativo Joaquim não respondeu logo. Elisa tomando o silêncio dele por aquiescência continuou:

    ___ Da próxima vez que Zéza for à cidade, vamos com ela, para sabermos algo mais sobre a criança.

     Tratadas todas as formalidades procedeu-se à filiação, Dona Maria do Amparo declarou perante a lei conhecer o casal, como sendo pessoas de bem, capazes de cuidar da criança. Pouco mais foi preciso.

    Quando Maria Inês veio para aquela casa, faltava apenas um mês para completar três anos de idade. Era Primavera e o jardim, não podia estar mais bonito; as macieiras e ameixieiras carregadas de flor. Ao fundo do quintal o pequeno pessegueiro destacava-se com suas flores rosa, o céu azul de uma calma e doce limpidez e o ar da aldeia ainda fresco mas saudável. Pequenina e delicada Maria Inês fixava tudo com estranheza, a casa, as pessoas que vira apenas uma única vez em casa de Dona Maria do Amparo e a tia Zéza que a trouxera, e de quem Maria Inês não largava a mão. Tinham vindo da cidade na camioneta e durante todo o trajecto a menina viera aconchegada ao colo de Zéza. Aninhara-se bem, no calor daquele peito afeito já a proteger crianças e adormecera. Não queria agora separar-se dela. Elisa tentou pegar-lhe e ela choramingou, agarrando-se ainda mais a Zéza. Então Elisa, foi  ao quarto e trouxe a boneca que havia deixado em cima da cama para Maria Inês e mostrou-lha. A menina abriu muito os bonitos olhos verdes, depois olhou para Elisa, ao mesmo tempo que agarrava a boneca com ambas as mãos e não mais a largou.

    Cinquenta anos passados, Maria Inês contemplava a moldura com o retrato de Elisa e Joaquim e interrogava-se; como teria sido a sua vida, onde estaria agora sem a ajuda deles? No seu coração uma saudade imensa, mas também uma enorme gratidão, por aquelas pessoas, os seus verdadeiros pais.

por Rosa Marques

 

Sobre a autora

 

Rosa Maria Correia Marques nasceu na Madeira, onde viveu até aos 18 anos. Após casar, mudou-se para Porto Santo, onde vive e trabalha. Gosta de ler e de tudo o que está ligado à arte e à cultura. Ama a Natureza, que sempre exerceu nela um enorme fascínio desde a mais tenra idade e a quem declara um amor incondicional. Preocupa-a a situação precária em que muitas pessoas vivem e toda a fragilidade que o mundo enfrenta devido às guerras e o sofrimento causado ao ser humano, principalmente às crianças. Participou no «XII Concurso de Poesia Sem Fronteiras» e em diversas obras colectivas em Portugal e no Brasil: «Boas Festas», «A Bíblia dos Pecadores», «O Beijo do Vampiro», «Vendaval de Emoções», «Um Litro de Lágrimas», «Perdidamente», «Jardim de Palavras», «Quatro Estações», «Deitado Em Berço Esplêndido», entre outras. «MAR EM MIM» é o seu primeiro livro de poesia.

 

 

Contato

smccomunicacao@hotmail.com

Vídeo em Destaque

linkedin

Livraria em destaque

Editoras - Portugal

Editoras - Brasil

 

 

 

 

 

Portal Literário - Um Mundo literário ao seu alcance